Ao longo da história de nosso
país, o movimento estudantil foi protagonista de importantes
mobilizações em defesa da soberania nacional, pela
transformação da educação e de nossa sociedade.
Mas o movimento estudantil tem uma
dinâmica e uma política própria, o que não nos permite
confundir o seu caráter.
O fato dos estudantes não formarem
uma classe social, mas serem um segmento da sociedade, com
base social policlassista, ou seja, composto por pessoas
oriundas das diversas classes sociais existentes em nossa
sociedade. Nas universidades e escolas encontramos
estudantes pertencentes às camadas mais pobres como às
camadas mais ricas. Precisamos entender, acima de tudo, que
esta composição não nos coloca no centro da luta de classes,
"capital X trabalho" ou "burguesia X proletariado". O que
não quer dizer que o movimento estudantil não tome posição.
Escolher um lado não nos permite
reproduzir visões de organização de outros movimentos, como
por exemplo, o movimento sindical. Pelo contrário, o
movimento estudantil deve produzir maneiras próprias de
organização que priorize a maior participação dos estudantes
nos fóruns de debates e decisões, ao invés de confundi-lo
com uma fábrica, um sindicato.
O movimento estudantil
constituiu-se historicamente e seu papel na transformação da
sociedade brasileira foi adquirido com a consolidação das
nossas entidades representativas, a nossa forma de
organização, que teve um marco importante com a criação da
União Nacional dos Estudantes (UNE).
Fundada em 11 de agosto de 1937,
na então Casa do Estudante no Brasil, no Rio de Janeiro, a
criação da UNE representou naquele momento a unificação dos
estudantes na criação de uma entidade máxima, legitimamente
reconhecida.
Reconhecida e com determinação
para se articular com outros movimentos da sociedade e já se
despontar como uma das principais forças de combate ao
nazi-fascismo. Na época a UNE realizou mobilizações em favor
da declaração de guerra do Estado brasileiro às potências
nazi-fascistas. Embalada pelo princípio de defesa da
soberania nacional, a entidade desencadeou a campanha
vitoriosa do "O Petróleo é Nosso!" que permitiu a criação da
Petrobrás.
Com uma influência política ampla
e consolidada, na década de 60, com a renúncia de Jânio
Quadros, a UNE se soma na campanha da Legalidade de Brizola,
no Rio Grande do Sul, na defesa da normalidade democrática e
pela posse de João Goulart. E não faltou fôlego para a
entidade impulsionar um enorme debate sobre a Reforma
Universitária.
Sempre em defesa da transformação
da educação superior no país, a entidade organiza nesta
mesma década dois seminários importantes sobre o tema, que
resultaram em dois importantes documentos: a Declaração da
Bahia e a Declaração do Paraná. O conteúdo avançado desses
documentos orientou a mais longa paralisação estudantil da
história, a conhecida "Greve de um Terço", que chegou a um
índice de adesão de 90% dos estudantes brasileiros que
exigiam participação de um terço nos órgãos colegiados de
administração nas Universidades.
Além disso, a UNE foi ponta de
lança de importantes movimentos culturais brasileiros. A
criação do Centro Popular de Cultura e Arte (CPC) foi uma
experiência vitoriosa que contou com a participação de
artistas como Cacá Diegues, Ferreira Gullar, Vianinha,
Gianfrancesco Guarnieri, entre outros.
Com o golpe militar, a instauração
do estado de exceção, o movimento estudantil e a UNE
sofreram uma violenta repressão. A entidade teve sua sede
invadida e incendiada pela ditadura, a Lei Suplicy de
Lacerda colocou a entidade e as demais entidades estaduais (UEEs)
na ilegalidade. Sem se render, a UNEi passa a atuar na
clandestinidade.